ITCMD subiu, mas o verdadeiro risco da empresa familiar é outro
A nova lei tributária expõe o que sempre foi verdade: holding sem governança só adia o caos na sucessão empresarial
Muita gente acredita que o maior problema da empresa familiar é pagar imposto na sucessão.
Não é.
A LC 227/2026 aumentou as alíquotas do ITCMD em vários estados. Todo mundo entrou em pânico. Ligações pipocaram nos escritórios de advocacia. A pergunta era sempre a mesma: “doutor, ainda vale a pena fazer holding?”
A resposta é sim. Mas não pelos motivos que você imagina.
Porque o ITCMD, por mais que aperte o bolso, você paga uma vez. É previsível. Dá para calcular, provisionar, planejar.
Agora a briga entre irmãos pelo comando da empresa? O filho que nunca trabalhou mas quer mandar? A viúva que entra em conflito com os enteados? Isso não tem alíquota. Isso destrói patrimônio de dentro para fora.
E é exatamente isso que está matando empresas familiares no Brasil.
Você constrói uma empresa durante 30 anos. Acorda cedo, passa fim de semana trabalhando, sacrifica férias. Chega aos 65 anos com um negócio sólido, rentável, que poderia sustentar três gerações.
Aí você morre.
E em seis meses a empresa está em crise. Os filhos não conversam mais. O gerente financeiro pediu demissão porque não sabe mais quem manda. Fornecedores começam a apertar os prazos. Cliente grande já está olhando concorrente.
Não foi o ITCMD que quebrou a empresa. Foi a falta de preparo.
A holding familiar virou moda nos últimos anos como ferramenta de economia tributária. E de fato, ela sempre teve esse benefício. Mas a LC 227/2026 mudou o jogo. As alíquotas subiram. A fiscalização aumentou. O benefício fiscal diminuiu.
E sabe o que isso fez de bom? Obrigou todo mundo a olhar para o que realmente importa.
Holding não é sobre pagar menos imposto. Nunca foi. Holding é sobre organização. Governança. Clareza de papéis. Preparação de quem vem depois.
Quando você estrutura uma holding do jeito certo, você está respondendo perguntas que a maioria evita: quem vai mandar quando você não estiver mais aqui? Como as decisões serão tomadas? O que acontece se um herdeiro quiser sair? E se um quiser entrar mas não tiver competência?
Essas perguntas não desaparecem porque você pagou menos ITCMD.
Eu atendo empresários que ficam obcecados com a alíquota do imposto. Querem saber o percentual exato, fazer simulações, comparar cenários. Mas quando eu pergunto “seus filhos sabem qual é o propósito da empresa?”, o silêncio é constrangedor.
Quando eu pergunto “você já definiu critérios para um familiar trabalhar na empresa?”, a resposta é quase sempre não.
E quando eu pergunto “existe algum documento que organize como a família vai tomar decisões sobre o patrimônio?”, aí vem o clássico: “a gente conversa, doutor, a família é unida”.
Família unida com o patriarca vivo e no comando é fácil. O teste é depois.
A estatística todo mundo conhece: 70% das empresas familiares não passam para a segunda geração. Desse número, a imensa maioria não quebra por incompetência técnica. Quebra por conflito familiar mal gerenciado.
É a disputa pelo poder que ninguém organizou. É a ausência de regras claras. É a falta de preparo dos sucessores. É a viúva que de repente vira sócia de filhos que ela mal conhece.
A holding, quando bem estruturada, força essas conversas. Você coloca no papel quem é sócio, quem é gestor, quem só recebe dividendos. Define se familiar pode trabalhar na empresa e em que condições. Cria um conselho que toma decisões patrimoniais. Separa o que é emoção do que é negócio.
Isso não tem preço. E não depende da alíquota do ITCMD.
Depois da LC 227/2026, muita gente achou que holding tinha “perdido a graça”. Alguns até desfizeram estruturas que tinham montado.
Foi o maior erro.
Porque o verdadeiro valor da holding familiar nunca foi tributário. Sempre foi sucessório. Sempre foi sobre transformar um patrimônio vulnerável em algo organizado, protegido e preparado para passar de geração.
O ITCMD vai continuar existindo. Vai subir de novo no futuro. Mas se você estruturar sua sucessão pensando só em imposto, você vai deixar sua família refém do que realmente destrói patrimônio: conflito, despreparo e falta de governança.
Você não protege quem você ama só pagando menos imposto.
Você protege organizando o que vai ficar quando você não estiver mais aqui.

